domingo, 30 de outubro de 2011

EU RECOMENDO

Tive ontem a oportunidade de assistir ao filme ‘O Palhaço` de Selton Mello, que ataca de ator, diretor e roteirista do filme. No elenco, o sempre fantástico Paulo José, o surpreendente Moacyr Franco, o impagável Tonico Pereira, a performática Teuda Bara e a divertida Fabiana Karla.

Confesso que fui assistir o filme pensando se tratar de mais uma dessas histórias comoventes que o cinema brasileiro conta na tentativa de se obter público. No entanto, foi com admiração que descobri que o filme é bom, bom de verdade: a trilha é primorosa, a fotografia minimamente estudada, a história é maravilhosa e o elenco, ah o elenco...

Poético, até mesmo meio nostálgico, talvez a maior surpresa do filme seja descobrir que os grandes dilemas do ser humano podem estar nas coisas mais banais do dia-a-dia,  assim como simples também possa ser a descoberta da felicidade.  

Na cena mais comovente do filme, Selton Mello confirma tudo isso com maestria: sem dizerem uma só palavra ele e o elenco falam tudo. Tão emocionante que me vi secando , disfarçadamente, as lágrimas que desceram incontidas dos meus olhos.

Claro que já chorei em outros filmes, mas desta vez, o pudor foi em reconhecer-me nos dilemas do palhaço Pangaré, cujo sofrimento se faz na falta de sua identidade, que nesse caso funciona como metáfora de duplo sentido; e no fato de que ele vive de fazer os outros rirem, mas ninguém percebe que ele também precisa do riso para viver.

Bravo, cinema brasileiro! Nem precisamos de Oscar.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

ILAÇÃO INFANTIL

         Menina brincando no chão da sala, os brinquedinhos espalhados,  enquanto a mãe e a avó conversam eloquentemente sobre os mais diversos assuntos: política, religião, literatura, balé, culinária, etc.  
 
         Eis que as duas fazem uma pausa no diálogo e surge um pequeno silêncio. A garotinha então pensa, pensa e solta sua pérola:

         - Gente mais crescente que a gente sabe das coisas, né?




quarta-feira, 30 de março de 2011

CHEIROS, SABORES E LEMBRANÇAS



Adoro cozinhar! Na minha casa o principal cômodo é a cozinha.  Fiz cuidadosamente a decoração de todos os cômodos da casa, mas foi à cozinha que dediquei especial atenção.

Quando planejei minha cozinha quis fazer dela um recanto confortável, onde eu pudesse usar, sujar, sem medo de ser feliz. Nada de cozinhas de capa de revistas de decoração, toda branquinha e organizadinha, que a gente olha e fica pensando “Será que dá prá fritar bolinho de chuva nela? E bolo de chocolate, dá pra fazer?”.

A minha cozinha tem cara de interior, lembra as cozinhas da minha infância, onde passava minhas férias escolares, na casa dos meus avós paternos. Tem chão de cimento queimado com ladrilho hidráulico, uma parede de tijolos aparente e textura ocre em outra. O telhado é de telha de cerâmica queimada e aparente, a mesa grande e rústica, feita de madeira de demolição, firme e pesada para aguentar o preparo de alimentos e os tabuleiros quentes recém retirados do forno. Os móveis, os eletrodomésticos, a cristaleira antiga, a porcelana, as panelas de ferro e barro, os acessórios, tudo meticulosamente escolhido.

Recentemente ganhei do meu marido uma cafeteira para espresso, que dispus em local de destaque. Logo cedo o cheirinho do café feito na hora já perfuma a casa toda.
Ainda faltam coisas, outras estão por fazer, mas no fundo acho que nunca vai ficar pronta. Aliás, nem quero que fique, porque a graça é essa, continuar pesquisando, garimpando equipamentos, descobrindo novidades e antiguidades. Tem sempre uma panela nova, um equipamento interessante, o fogão italiano dos sonhos, enfim, um universo.
Minha cozinha é a minha verdadeira sala de estar. É lá que recebo os parentes, os amigos, os amigos dos meus filhos e os amigos dos amigos. Não tem sala? Tem, tem sim, mas fica lá: sofá, cadeiras, mesinhas de canto, piano, violão, bandolim, computador, etc. Usamos quando estamos sozinhos, para estudar e tocar músicas, acessar a internet ou assistir TV. De resto, os quartos são para dormir, os banheiros para a higiene, e é só, tudo estritamente necessário.
Ah, me esqueci: apesar de morar num apartamento, ainda tenho a sorte e o prazer de ter uma área externa ligada à cozinha por portas grandes de vidro que abrimos sempre que o número de convidados fica maior, tornando o lugar mais aprazível ainda, sobretudo nas noites quentes ou estreladas. Lá tenho meus vasos onde planto ervas de todos os tipos, cheiros, cores e sabores, as quais utilizo tanto no preparo dos alimentos, quanto para deixar o espaço com cara de quintal de casa.
Um dia me peguei perguntando por que gosto tanto de cozinhar? Talvez pela influência dos meus avós, que na minha infância me faziam carinhos através dos quitutes que preparavam. Tanto vovó, quanto vovô eram excelentes cozinheiros. Aliás, na minha família homem na cozinha nunca foi tabu, muito pelo contrário, os homens do nosso clã gostam da cozinha e alguns de cozinhar.  Também sou o tipo de pessoa que gosta de desafios, mas não de qualquer tipo de desafio.
 
Certa vez resolvi que queria aprender a fazer pizza. Arranjei várias receitas de massa, várias tipos de recheio. Comecei a trabalhar. A primeira pizza  foi um horror, mas a teimosia não me deixou desistir, era questão de honra. Fiz, uma, duas, dez, quinze vezes e a cada tentativa descobria o melhor ponto para abrir a massa, a quantidade mais precisa de farinha, a marca de fermento ideal. O pessoal de casa contribuindo a cada pedaço: “Desta vez ficou mais crocante, da vez passada tava mais fininha” e por aí afora.
Um belo dia cheguei no ponto que queria, a pizza perfeita, pelo menos para a minha expectativa. Reuni os amigos, fiz algumas noitadas de rodízio de pizzas, com vários tipos de recheios, inclusive os doces para a sobremesa, finalizando com licor e café, um sucesso! Todo mundo adorou, elogiou, ficamos todos felizes.

Passou, nunca mais fiz pizza, perdi o interesse por fazê-las logo depois que dominei as artimanhas e hoje escuto as reclamações do marido e dos filhos: “Depois que aprendeu parou de fazer?”.
Conclusão: o importante para mim nem foi fazer a pizza em si. Poderia ser sushi, macaron, bolo de noiva ou um assado de avestruz. O importante foi o ritual em si, as companhias dando pitaco, sugerindo, a aventura das pequenas descobertas, os pequenos experimentos, o calor do fogão, dos amigos e da família, os elogios (risos).
Bachelard certa vez disse que “a lembrança pura não tem data, tem uma estação. É a estação que constitui a marca fundamental das lembranças. Que sol ou que vento fazia nesse dia memorável?”. Muitas das minhas boas lembranças têm sabores e cheiros. Quando sentir saudades dessas lembranças, volto a fazer pizzas.


sexta-feira, 11 de março de 2011

CRIANÇA E SIMPLICIDADE



Estávamos eu e meu filho de 10 anos, João Victor, assistindo a um desses programas do tipo Show de Talentos, quando uma moça bonita apareceu para se apresentar com um violão completamente desafinado. Quando a bendita iniciou seus primeiros acordes, Jojô (este é o apelido dele) tapou os dois ouvidos com as mãos, se encolheu na poltrona soltando a frase indignada:

     - Mamãe, a gente que é "músico" sofre. Será que essas pessoas  não sabem que é preciso afinar o instrumento antes de se apresentar?

Claro que, como toda mãe coruja que se preze morri de rir, mas confesso que o que mais me impressionou foi sua segurança ao se declarar "músico". Ok, ele é filho de maestro, existe uma influência familiar e coisa e tal, mas qualquer um de nós adultos teria a maior prudência em fazer tal comentário. Tenho amigos que estudam música há anos, chegam a tocar peças difíceis, mas quando questionados respondem, "não, eu sou médico, a música é só um hobie". E isso não vale apenas para a música. Vale para a dança, pintura, esportes, e por aí vai.

Me lembro de quando João tinha 4 anos de idade e ao ser perguntado o que seria quando crescesse respondeu de pronto: “Maestro e lixeiro”. Ãhn, como assim? Simples: “Quero ser maestro por causa do papai e lixeiro porque eles são muito felizes, sempre brincam comigo quando passam aqui na porta de casa”. Visualizei, então, a imagem dos garis e me lembrei da algazarra que fazem ao passar pelas ruas do bairro, mexendo com as mocinhas, tirando onda entre eles, no maior pique que a adrenalina estimulada pelo trabalho aeróbico puxado lhes proporciona. João tem razão, lixeiros são mesmo muito felizes. E resolvidos. Já nós...

Educados academicamente somos todos cheios de dedos. Mas que pudor é esse? Desde quando temos que ser uma coisa só, ter uma profissão só, ser só isso ou aquilo? Quem foi que disse isso pra gente e nós acreditamos? Discordo totalmente. Eu posso ser várias coisas: empresária, designer, musicista, educadora, mãe, esposa e mais um tanto de coisas. Mas sempre que se fala em multi profissional ou multi habilidades as pessoas já relacionam logo essa ideia à pessoas excepcionais como Leonardo Da Vinci. Nada mais natural num mundo em que a especialização é cada dia mais valorizada.

Mas, voltando aos meus amigos habilidosos de que falei antes, percebo que tabu maior está no campo das artes, todo ele. Não sei se estas pessoas imaginavam ser uma coisa, mas por imposições familiares ou da sociedade acabaram não se tornando por não terem coragem de seguir com seu sonho, ou se a idéia de que os artistas são pessoas etéreas especialmente abençoadas pelos dons divinos ainda é muito forte, mas o certo é que o campo das artes é visto como um lugar para poucos.

Ninguém precisa ser um Da Vinci para ser multi. Até porque, fala-se muito nas suas muitas habilidades, mas, convenhamos, na época dele, as pessoas não tinham como aprofundar muito nos conhecimentos por falta de conteúdo palpável mesmo. Então, Da Vinci era cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, pintor, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico só nos tempos dele, porque nos dias de hoje não sei nem mesmo se ele seria considerado um grande pintor,  tendo em vista que os talentos surge hoje e são substituídos por outro amanhã.  
  
Fico com a Isabela, aluninha de 5 anos de idade do curso de Musicalização da minha escola, que um dia desses me pegou conversando com a mãe dela. Márcia confessava ter um sonho de infância de tocar piano. Repliquei na mesma hora: "Então você já tá no lugar certo". "Não, não, o que é isso, isso não é para mim, é muito difícil". 

Ao que a Isabela respondeu:

- Não, mamãe, tocar piano é fácil quer ver? É só apertar a tecla – e mostrou com os dedinhos.

Que os deuses salvem as crianças e nos traga de volta este espírito simplista.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

PANDORA E A ESPERANÇA


Nesses dias, particularmente hoje, venho sofrendo de fortes dores de cabeça, a famosa enxaqueca, cujo alvo predileto são as mulheres. Culpa do tal do estrogênio. Não que os homens não passem por isso. Na minha família, por exemplo, os dois homens da casa sempre se queixaram das danadas, mas nada se compara às crises malucas sofridas por mim, minha irmã e minha mãe. Estudos comprovam que a proporção é de 4 mulheres para cada homem. Fazer o quê, né? 

Não sei bem se por conta das dores que muitas vezes me tornam incapacitada ou se pelos repousos forçados que limitam meu acesso à leitura e à televisão, tenho passado muito tempo ocioso pensado na condição feminina de refém das emoções e sentimentos. Por mais que as mulheres estejam independentes e ativas, atuantes em setores nunca antes imaginados para elas, percebo que nós ainda precisamos aprender muito sobre a sobrevivência nesses ambientes. De fato uma sobrecarga emocional grande ao conciliar trabalho, filhos e casa não é um assunto que se resolve assim do dia para a noite. Talvez por isso também as fortes dores de cabeça.
Mas voltando aos meus pensamentos, talvez o sentimento que mais me intrigue e desafie seja o sentimento de esperança. Se por um lado sou uma pessoa que me auto-designo agnóstica, e o termo “Esperança” está sempre muito relacionado à fé religiosa, tenho como característica vital a autoconfiança e a certeza de conseguir realizar tudo a que me proponho. Não seria isso uma forma de esperança?

Um de meus autores prediletos, Rubem Alves, nos deu uma maravilhosa teoria sobre a esperança onde ele a distingue do otimismo dando à primeira seu devido valor . Disse ele que “Otimismo é quando, sendo primavera do lado de fora, nasce a primavera do lado de dentro. Esperança é quando, sendo seca absoluta do lado de fora, continuam as fontes a borbulhar dentro do coração”.
Rubem, que foi pastor Presbiteriano nos anos 50, já nesta época mostrava suas tendências revolucionárias quanto à religiosidade: “...naquele tempo minhas idéias eram diferentes. Eu achava que religião não era para garantir o céu depois da morte, mas para tornar esse mundo melhor enquanto estamos vivos. Claro que minhas idéias foram recebidas com desconfiança...”
E foi nessa linha de pensamentos que cheguei a divagações mais filosóficas. Explico: comecei a refletir sobre a historinha mitológica da “Caixa de Pandora”. O nome "Pandora" possui vários significados: panta dôra, a que possui todos os dons, ou pantôn dôra, a que é o dom de todos (dos deuses).

Segundo a mitologia grega, Pandora foi a primeira mulher que existiu, criada por Hefesto,  deus do fogo, dos metais e da metalurgia,  e Atena, deusa da guerra, da civilização, da sabedoria, da arte, da justiça e da habilidade. Atena e Hefesto foram auxiliados por todos os outros deuses e sob as ordens de Zeus,  o  rei dos deuses, soberano do Monte Olimpo e deus do céu e do trovão. Zeus fez isso para punir Prometeu, o titã defensor da humanidade e conhecido por sua astuta inteligência,  por ele ter roubado de Zeus o fogo divino, dando-lhe aos mortais.
Cada deus deu a Pandora uma qualidade: recebeu de um a graça, de outro a beleza, de outros a persuasão, a inteligência, a paciência, a meiguice, habilidade na dança e nos trabalhos manuais. Hermes, porém, pôs no seu coração a curiosidade, a traição e a mentira. Feita à semelhança das deusas imortais, Zeus destinou pandora à espécie humana. 
Como castigo, Zeus enviou Pandora a Epimeteu (o que vê depois, por isso inconsequente), a quem seu irmão Prometeu recomendara que não recebesse nenhum presente dos deuses. Vendo-lhe a radiante beleza, Epimeteu esqueceu a recomendação do irmão e tornou-a sua esposa.

De maneira esperta, Zeus deu a Pandora como presente de casamento uma caixa onde cada um dos deuses havia colocado grande quantidade do bem e do mal. Prometeu havia recomendado ao casal que não abrisse a caixa, porém Pandora não resistindo à curiosidade, abriu a caixa e todos os males  escaparam, sendo os homens, dali em diante, afligidos por todos os eles.  Já os bens que a caixa continha desapareceram, com exceção da esperança (sim, voltamos a ela) que só se vai com a permissão do homem que a traz, uma jóia preciosa que fortifica o homem e lhe dá condição de enfrentar todos os males com que a vida o maltrata.
Fico a me perguntar quanto ao sentido desta lenda: por que uma caixa, contendo todos os males da humanidade conteria também a esperança? Na minha concepção é porque a esperança, mais do que o amor, mais que a felicidade, mais que qualquer outro bem, é o poder que mantém acesa a centelha de vida no ser humano: o fogo de Prometeu. Não falo só da vida física, mas da vida mental, afinal, de que adianta um corpo são cujo pensamento já morreu? Para o bem ou para o mal, é o pensamento que nos impulsiona para nossos objetivos, paixões, interesses, vontades.  E é da esperança que advêm os demais bens. O amor sem esperança é dor. A felicidade sem esperança é alegria passageira. A paixão sem esperança é entusiasmo. A vida sem esperança é morte.

A esperança é minha maior inspiração. É nela que encontro forças para ultrapassar todas as dificuldades, os golpes duros que a vida trás para qualquer um e continuar a seguir em frente.

Minha esperança hoje é quase pueril: tenho esperança que minha enxaqueca vá embora para que eu possa vir a pensar em assuntos mais concretos.

Habemus spe!!

sábado, 22 de janeiro de 2011

PORQUE BIGORNA NA CABEÇA



Acordou cedinho. Tinha o hábito de acordar sempre por volta das 6 horas. Já acostumada com isso, eu ficava da minha cama ouvindo seus primeiros sinais de vida consciente. Primeiro a caixa de brinquedos, o barulhinho das pequenas peças sendo reviradas à procura do objeto específico. Nada de interessante. Silêncio... Em seguida, ouvi a última gaveta da cômoda sendo puxada. Ela serviria de degrau para alcançar a parte de cima do móvel, onde ficavam as bonecas. Mexe daqui, mexe dali, escolhe e desce. Depois disso os passinhos descalços vindo em minha direção, a porta do quarto sempre aberta até o canto para o caso dela ter algum pesadelo durante a noite. A luz do espelho do banheiro também ficava acesa até o dia amanhecer.
Entrou no quarto e eu fiquei lá, deitada de lado, fingindo que ainda dormia. Subiu na cama com as duas bonequinhas que havia escolhido e pegado sobre a cômoda: Moranguinho e Cafezinho (essa era a minha preferida pelo perfume). Foi se enroscando e deitando no espaço que eu, propositadamente, havia deixado para ela. Permaneci de olhos fechados ainda fingindo que dormia (esse era o nosso ritual diário) e ela lá, quietinha, na medida do que uma criança de 3 anos consegue ficar. Coçava o nariz, virava para um lado, para o outro. Bocejava alto, depois sussurrava uma musiquinha. Puxava as fitinhas da camisolinha de algodão branco com coraçõezinhos lilás e rosa, feita com a sobra do tecido de um jogo de cama de berço que não tinha mais serventia como roupa de cama, mas que permanecia novinho.  Senti sua respiração de pertinho, como que investigando a veracidade do meu sono. Desistiu e encostou a cabecinha no meu peito, deixando que eu sentisse o cheirinho em seu cabelo, do xampuzinho infantil com aloevera e calêndula, o mesmo perfume da loção pós-banho. No cabelinho fino ainda estavam as marcas da maria-chiquinha usada no dia anterior.
Sussurou:
- Mamãe...
- Hummm...
- Cê tá dumiiino?
- Tôoo...
...
...
...- Quando você acordar você faz minha "dedera" de Toddy?
Ah, filhos, por que vocês crescem? É tão bom tê-los assim...
Respondi:
- Você tá crescendo muito depressa, um dia desses ainda amarro uma bigorna na sua cabeça pra você parar de crescer.
Levantei e fui à cozinha preparar a mamadeira.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

INSONE


Ah, a maldição da insônia...
O que fazer quando se é acometido por ela? Ler? Não sinto vontade, tampouco tenho algo interessante. Sexo? Estou sem parceiro no momento.

Ok, vamos procurar alguém na net? Todo mundo dormindo... E eu com essa maldita insônia. Que inferno, queria ter alguém com quem conversar. 

Deveria existir um serviço do tipo ‘disque insônia’: você liga e alguém do outro lado da linha se ocupa em lhe distrair até que o sono chegue. Não existe esse tipo de serviço para os deprimidos, para os suicidas? Uma pessoa com insônia é um um depressivo-suicida em potencial, então porque não adiantar o processo de atendimento?


Melhor ainda, criar uma rede de insones conversando uns com os outros. Não seria o máximo? Funciona assim: eu sofro de insônia, você também. Nós dois nos inscrevemos num cadastro de insones. Lá falamos dos nossos interesses, ideais políticos, filosóficos e religiosos e um belo dia, nos vemos os dois acordados no meio da madrugada com os olhos esbugalhados.  Irritados pela espera do sono que não vem, ligamos para o disque insônia e o próprio sistema, analisando nossos cadastros, trata de cruzar nossas linhas e, dessa forma, passamos o resto da noite acordados falando da vida até que o dia amanheça e, pela manhã já exaustos, começamos a cochilar com os telefones nas mãos. Nunca saberemos quem é quem pois o sistema é tão seguro que cria pseudônimos e bloqueia informações muito pessoais. Assim, com o passar do tempo nos tornaremos insones não mais por preocupações ou desilusões, mas pela ansiedade de encontrar a já familiar voz amiga.

Como isso ainda não existe, converso, solitariamente e insone, com o meu PC, tão frio quanto qualquer psicanalista.

Na televisão um filme idiota qualquer passa uma história sem pé nem cabeça e eu fico me perguntando: "Por que será que as redes de TV não se preocupam com as pessoas insones? Esse tipo de filme só piora nossa situação. Por que não podem passar um delicioso musical dos anos 50, um filme sem qualquer pretensão além de divertir  quem está assistindo?" E o filme não acaba nunca mais, é uma sucessão de cenas esquisitas, sem nexo ou sentido, sem qualquer propósito. Onde eles querem chegar com isso? Mudo de canal e nada, outro assunto, mas a mesma porcaria...
Ah sono, chegue, por favor! Não há nada pior do que uma noite vazia, sem ter com quem conversar. Pior: conversando consigo mesma, tendo que enfrentar todos os seus medos e angustias: isto sim é terrível...

E agora começa o corujão. O nome o filme é ‘Kung Fu Futebol Clube’. Isso lhe diz alguma coisa? Sim, diz, claro que diz. Diz "nunca tenha insônia, pois esse é o tipo de coisa reservada aos solitários sonâmbulos." Porque todo sonâmbulo é um ser solitário. Não adianta termos família, filhos, amigos, nada disso nos salva quando a insônia chega e a solidão noturna assola, fazendo-nos perceber que estamos destinados ao abandono e que só temos a nós mesmos.

Triste conclusão ao nascer dos primeiros raios de sol!