quarta-feira, 30 de março de 2011

CHEIROS, SABORES E LEMBRANÇAS



Adoro cozinhar! Na minha casa o principal cômodo é a cozinha.  Fiz cuidadosamente a decoração de todos os cômodos da casa, mas foi à cozinha que dediquei especial atenção.

Quando planejei minha cozinha quis fazer dela um recanto confortável, onde eu pudesse usar, sujar, sem medo de ser feliz. Nada de cozinhas de capa de revistas de decoração, toda branquinha e organizadinha, que a gente olha e fica pensando “Será que dá prá fritar bolinho de chuva nela? E bolo de chocolate, dá pra fazer?”.

A minha cozinha tem cara de interior, lembra as cozinhas da minha infância, onde passava minhas férias escolares, na casa dos meus avós paternos. Tem chão de cimento queimado com ladrilho hidráulico, uma parede de tijolos aparente e textura ocre em outra. O telhado é de telha de cerâmica queimada e aparente, a mesa grande e rústica, feita de madeira de demolição, firme e pesada para aguentar o preparo de alimentos e os tabuleiros quentes recém retirados do forno. Os móveis, os eletrodomésticos, a cristaleira antiga, a porcelana, as panelas de ferro e barro, os acessórios, tudo meticulosamente escolhido.

Recentemente ganhei do meu marido uma cafeteira para espresso, que dispus em local de destaque. Logo cedo o cheirinho do café feito na hora já perfuma a casa toda.
Ainda faltam coisas, outras estão por fazer, mas no fundo acho que nunca vai ficar pronta. Aliás, nem quero que fique, porque a graça é essa, continuar pesquisando, garimpando equipamentos, descobrindo novidades e antiguidades. Tem sempre uma panela nova, um equipamento interessante, o fogão italiano dos sonhos, enfim, um universo.
Minha cozinha é a minha verdadeira sala de estar. É lá que recebo os parentes, os amigos, os amigos dos meus filhos e os amigos dos amigos. Não tem sala? Tem, tem sim, mas fica lá: sofá, cadeiras, mesinhas de canto, piano, violão, bandolim, computador, etc. Usamos quando estamos sozinhos, para estudar e tocar músicas, acessar a internet ou assistir TV. De resto, os quartos são para dormir, os banheiros para a higiene, e é só, tudo estritamente necessário.
Ah, me esqueci: apesar de morar num apartamento, ainda tenho a sorte e o prazer de ter uma área externa ligada à cozinha por portas grandes de vidro que abrimos sempre que o número de convidados fica maior, tornando o lugar mais aprazível ainda, sobretudo nas noites quentes ou estreladas. Lá tenho meus vasos onde planto ervas de todos os tipos, cheiros, cores e sabores, as quais utilizo tanto no preparo dos alimentos, quanto para deixar o espaço com cara de quintal de casa.
Um dia me peguei perguntando por que gosto tanto de cozinhar? Talvez pela influência dos meus avós, que na minha infância me faziam carinhos através dos quitutes que preparavam. Tanto vovó, quanto vovô eram excelentes cozinheiros. Aliás, na minha família homem na cozinha nunca foi tabu, muito pelo contrário, os homens do nosso clã gostam da cozinha e alguns de cozinhar.  Também sou o tipo de pessoa que gosta de desafios, mas não de qualquer tipo de desafio.
 
Certa vez resolvi que queria aprender a fazer pizza. Arranjei várias receitas de massa, várias tipos de recheio. Comecei a trabalhar. A primeira pizza  foi um horror, mas a teimosia não me deixou desistir, era questão de honra. Fiz, uma, duas, dez, quinze vezes e a cada tentativa descobria o melhor ponto para abrir a massa, a quantidade mais precisa de farinha, a marca de fermento ideal. O pessoal de casa contribuindo a cada pedaço: “Desta vez ficou mais crocante, da vez passada tava mais fininha” e por aí afora.
Um belo dia cheguei no ponto que queria, a pizza perfeita, pelo menos para a minha expectativa. Reuni os amigos, fiz algumas noitadas de rodízio de pizzas, com vários tipos de recheios, inclusive os doces para a sobremesa, finalizando com licor e café, um sucesso! Todo mundo adorou, elogiou, ficamos todos felizes.

Passou, nunca mais fiz pizza, perdi o interesse por fazê-las logo depois que dominei as artimanhas e hoje escuto as reclamações do marido e dos filhos: “Depois que aprendeu parou de fazer?”.
Conclusão: o importante para mim nem foi fazer a pizza em si. Poderia ser sushi, macaron, bolo de noiva ou um assado de avestruz. O importante foi o ritual em si, as companhias dando pitaco, sugerindo, a aventura das pequenas descobertas, os pequenos experimentos, o calor do fogão, dos amigos e da família, os elogios (risos).
Bachelard certa vez disse que “a lembrança pura não tem data, tem uma estação. É a estação que constitui a marca fundamental das lembranças. Que sol ou que vento fazia nesse dia memorável?”. Muitas das minhas boas lembranças têm sabores e cheiros. Quando sentir saudades dessas lembranças, volto a fazer pizzas.


sexta-feira, 11 de março de 2011

CRIANÇA E SIMPLICIDADE



Estávamos eu e meu filho de 10 anos, João Victor, assistindo a um desses programas do tipo Show de Talentos, quando uma moça bonita apareceu para se apresentar com um violão completamente desafinado. Quando a bendita iniciou seus primeiros acordes, Jojô (este é o apelido dele) tapou os dois ouvidos com as mãos, se encolheu na poltrona soltando a frase indignada:

     - Mamãe, a gente que é "músico" sofre. Será que essas pessoas  não sabem que é preciso afinar o instrumento antes de se apresentar?

Claro que, como toda mãe coruja que se preze morri de rir, mas confesso que o que mais me impressionou foi sua segurança ao se declarar "músico". Ok, ele é filho de maestro, existe uma influência familiar e coisa e tal, mas qualquer um de nós adultos teria a maior prudência em fazer tal comentário. Tenho amigos que estudam música há anos, chegam a tocar peças difíceis, mas quando questionados respondem, "não, eu sou médico, a música é só um hobie". E isso não vale apenas para a música. Vale para a dança, pintura, esportes, e por aí vai.

Me lembro de quando João tinha 4 anos de idade e ao ser perguntado o que seria quando crescesse respondeu de pronto: “Maestro e lixeiro”. Ãhn, como assim? Simples: “Quero ser maestro por causa do papai e lixeiro porque eles são muito felizes, sempre brincam comigo quando passam aqui na porta de casa”. Visualizei, então, a imagem dos garis e me lembrei da algazarra que fazem ao passar pelas ruas do bairro, mexendo com as mocinhas, tirando onda entre eles, no maior pique que a adrenalina estimulada pelo trabalho aeróbico puxado lhes proporciona. João tem razão, lixeiros são mesmo muito felizes. E resolvidos. Já nós...

Educados academicamente somos todos cheios de dedos. Mas que pudor é esse? Desde quando temos que ser uma coisa só, ter uma profissão só, ser só isso ou aquilo? Quem foi que disse isso pra gente e nós acreditamos? Discordo totalmente. Eu posso ser várias coisas: empresária, designer, musicista, educadora, mãe, esposa e mais um tanto de coisas. Mas sempre que se fala em multi profissional ou multi habilidades as pessoas já relacionam logo essa ideia à pessoas excepcionais como Leonardo Da Vinci. Nada mais natural num mundo em que a especialização é cada dia mais valorizada.

Mas, voltando aos meus amigos habilidosos de que falei antes, percebo que tabu maior está no campo das artes, todo ele. Não sei se estas pessoas imaginavam ser uma coisa, mas por imposições familiares ou da sociedade acabaram não se tornando por não terem coragem de seguir com seu sonho, ou se a idéia de que os artistas são pessoas etéreas especialmente abençoadas pelos dons divinos ainda é muito forte, mas o certo é que o campo das artes é visto como um lugar para poucos.

Ninguém precisa ser um Da Vinci para ser multi. Até porque, fala-se muito nas suas muitas habilidades, mas, convenhamos, na época dele, as pessoas não tinham como aprofundar muito nos conhecimentos por falta de conteúdo palpável mesmo. Então, Da Vinci era cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, pintor, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico só nos tempos dele, porque nos dias de hoje não sei nem mesmo se ele seria considerado um grande pintor,  tendo em vista que os talentos surge hoje e são substituídos por outro amanhã.  
  
Fico com a Isabela, aluninha de 5 anos de idade do curso de Musicalização da minha escola, que um dia desses me pegou conversando com a mãe dela. Márcia confessava ter um sonho de infância de tocar piano. Repliquei na mesma hora: "Então você já tá no lugar certo". "Não, não, o que é isso, isso não é para mim, é muito difícil". 

Ao que a Isabela respondeu:

- Não, mamãe, tocar piano é fácil quer ver? É só apertar a tecla – e mostrou com os dedinhos.

Que os deuses salvem as crianças e nos traga de volta este espírito simplista.