Nesses dias, particularmente hoje, venho sofrendo de fortes dores de cabeça, a famosa enxaqueca, cujo alvo predileto são as mulheres. Culpa do tal do estrogênio. Não que os homens não passem por isso. Na minha família, por exemplo, os dois homens da casa sempre se queixaram das danadas, mas nada se compara às crises malucas sofridas por mim, minha irmã e minha mãe. Estudos comprovam que a proporção é de 4 mulheres para cada homem. Fazer o quê, né?
Não sei bem se por conta das dores que muitas vezes me tornam incapacitada ou se pelos repousos forçados que limitam meu acesso à leitura e à televisão, tenho passado muito tempo ocioso pensado na condição feminina de refém das emoções e sentimentos. Por mais que as mulheres estejam independentes e ativas, atuantes em setores nunca antes imaginados para elas, percebo que nós ainda precisamos aprender muito sobre a sobrevivência nesses ambientes. De fato uma sobrecarga emocional grande ao conciliar trabalho, filhos e casa não é um assunto que se resolve assim do dia para a noite. Talvez por isso também as fortes dores de cabeça.
Mas voltando aos meus pensamentos, talvez o sentimento que mais me intrigue e desafie seja o sentimento de esperança. Se por um lado sou uma pessoa que me auto-designo agnóstica, e o termo “Esperança” está sempre muito relacionado à fé religiosa, tenho como característica vital a autoconfiança e a certeza de conseguir realizar tudo a que me proponho. Não seria isso uma forma de esperança?
Um de meus autores prediletos, Rubem Alves, nos deu uma maravilhosa teoria sobre a esperança onde ele a distingue do otimismo dando à primeira seu devido valor . Disse ele que “Otimismo é quando, sendo primavera do lado de fora, nasce a primavera do lado de dentro. Esperança é quando, sendo seca absoluta do lado de fora, continuam as fontes a borbulhar dentro do coração”.
Rubem, que foi pastor Presbiteriano nos anos 50, já nesta época mostrava suas tendências revolucionárias quanto à religiosidade: “...naquele tempo minhas idéias eram diferentes. Eu achava que religião não era para garantir o céu depois da morte, mas para tornar esse mundo melhor enquanto estamos vivos. Claro que minhas idéias foram recebidas com desconfiança...”
E foi nessa linha de pensamentos que cheguei a divagações mais filosóficas. Explico: comecei a refletir sobre a historinha mitológica da “Caixa de Pandora”. O nome "Pandora" possui vários significados: panta dôra, a que possui todos os dons, ou pantôn dôra, a que é o dom de todos (dos deuses).
Segundo a mitologia grega, Pandora foi a primeira mulher que existiu, criada por Hefesto, deus do fogo, dos metais e da metalurgia, e Atena, deusa da guerra, da civilização, da sabedoria, da arte, da justiça e da habilidade. Atena e Hefesto foram auxiliados por todos os outros deuses e sob as ordens de Zeus, o rei dos deuses, soberano do Monte Olimpo e deus do céu e do trovão. Zeus fez isso para punir Prometeu, o titã defensor da humanidade e conhecido por sua astuta inteligência, por ele ter roubado de Zeus o fogo divino, dando-lhe aos mortais.
Cada deus deu a Pandora uma qualidade: recebeu de um a graça, de outro a beleza, de outros a persuasão, a inteligência, a paciência, a meiguice, habilidade na dança e nos trabalhos manuais. Hermes, porém, pôs no seu coração a curiosidade, a traição e a mentira. Feita à semelhança das deusas imortais, Zeus destinou pandora à espécie humana.
Como castigo, Zeus enviou Pandora a Epimeteu (o que vê depois, por isso inconsequente), a quem seu irmão Prometeu recomendara que não recebesse nenhum presente dos deuses. Vendo-lhe a radiante beleza, Epimeteu esqueceu a recomendação do irmão e tornou-a sua esposa.
De maneira esperta, Zeus deu a Pandora como presente de casamento uma caixa onde cada um dos deuses havia colocado grande quantidade do bem e do mal. Prometeu havia recomendado ao casal que não abrisse a caixa, porém Pandora não resistindo à curiosidade, abriu a caixa e todos os males escaparam, sendo os homens, dali em diante, afligidos por todos os eles. Já os bens que a caixa continha desapareceram, com exceção da esperança (sim, voltamos a ela) que só se vai com a permissão do homem que a traz, uma jóia preciosa que fortifica o homem e lhe dá condição de enfrentar todos os males com que a vida o maltrata.
Fico a me perguntar quanto ao sentido desta lenda: por que uma caixa, contendo todos os males da humanidade conteria também a esperança? Na minha concepção é porque a esperança, mais do que o amor, mais que a felicidade, mais que qualquer outro bem, é o poder que mantém acesa a centelha de vida no ser humano: o fogo de Prometeu. Não falo só da vida física, mas da vida mental, afinal, de que adianta um corpo são cujo pensamento já morreu? Para o bem ou para o mal, é o pensamento que nos impulsiona para nossos objetivos, paixões, interesses, vontades. E é da esperança que advêm os demais bens. O amor sem esperança é dor. A felicidade sem esperança é alegria passageira. A paixão sem esperança é entusiasmo. A vida sem esperança é morte.
A esperança é minha maior inspiração. É nela que encontro forças para ultrapassar todas as dificuldades, os golpes duros que a vida trás para qualquer um e continuar a seguir em frente.
Minha esperança hoje é quase pueril: tenho esperança que minha enxaqueca vá embora para que eu possa vir a pensar em assuntos mais concretos.
Habemus spe!!

Dennyse,
ResponderExcluirGostei demais do seu post. Inspiração, para mim, vai além da esperança em si. Esta é para mim aquela expectativa depositada em algum lugar ou em alguém, fora de mim.
Porém, pontos de vista em meio a crises de enxaquecas. Sei bem como se sente. Ao nosso lado alguns famosos pensadores. Um deles disse que o que não me mata, me fortalece. Sendo assim, somos muito fortes diante da inspiração, diante da esperança.
Melhoras...
bjs*
Claro, Cris, não podemos nos esquecer de Nietzsche. Mas ele é tão grande, tão imenso, que penso merecer um (ou vários) post só para ele, né.
ResponderExcluirValeu pelo carinho. E vamos lutando contra as malditas enxaquecas...
Bjs!