sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A CULPA DE DEUS






- Oi, tudo bem?
- Tudo, e você?
- Também! Olha só, não almocei e acho que vou só comer um salgado, mesmo. O que tem pra lanchar?
- Tem empada, esfirra, coxinha, enrolado de presunto, pão de queijo...
- Pão de queijo!
- Um ou dois?
- Só um, uai. Por que dois?
- Porque se você vai almoçar, pode estar querendo comer mais.
- Não, daí seria gula. Não há necessidade.
- É, estou precisando aprender a fazer isso com o cigarro.
- É bom mesmo, fumar não é legal. Aliás, fumar hoje em dia é brega, já foi o tempo em que um cigarro era sinônimo de glamour.
- Mas se Deus quiser eu vou conseguir sair desse vício, Deus há de me ajudar!
- Como assim? Foi ele quem te pôs no vício? Não, então não é responsabilidade dele lhe tirar. Isso é você quem tem que resolver.
É impressionante a facilidade que as pessoas têm em colocar suas responsabilidades nas costas de Deus. Onde já se viu isso? Me lembrei do meu filho, ainda criança: malandrou o ano inteiro no colégio, tirou notas péssimas e, em plenas provas finais, o flagro em seu quarto, de joelhos, uma vela acesa em frente.
- O que é isso?
- Tou rezando pra Deus me ajudar a conseguir tirar notas boas na prova e não pegar recuperação.
- Ah,  tá! Pensa bem: que Deus seria esse se ajudasse um malandro que não estudou o ano inteiro? Estaria certo com o outro aluno, coitado, que se dedicou, esforçou, estudou durante toda trajetória letiva? Isso seria  justo? Ah, fala sério, tá de brincadeira...
Fico me perguntando: que mania é essa das pessoas sempre dizerem que "Deus quis assim, Deus sabe o que faz"? Fico pensando que, talvez, as pessoas usem a "crença em Deus" como um passaporte para suas verdadeiras fraquezas. 
"O erro é crer que a culpa terá de ser entendida da mesma maneira por Deus e pelos homens, disse um dos anjos" – Saramago, José. 2009. Caim. Editora Companhia das Letras, São Paulo.