Acordou cedinho. Tinha o hábito de acordar sempre por volta das 6 horas. Já acostumada com isso, eu ficava da minha cama ouvindo seus primeiros sinais de vida consciente. Primeiro a caixa de brinquedos, o barulhinho das pequenas peças sendo reviradas à procura do objeto específico. Nada de interessante. Silêncio... Em seguida, ouvi a última gaveta da cômoda sendo puxada. Ela serviria de degrau para alcançar a parte de cima do móvel, onde ficavam as bonecas. Mexe daqui, mexe dali, escolhe e desce. Depois disso os passinhos descalços vindo em minha direção, a porta do quarto sempre aberta até o canto para o caso dela ter algum pesadelo durante a noite. A luz do espelho do banheiro também ficava acesa até o dia amanhecer.
Entrou no quarto e eu fiquei lá, deitada de lado, fingindo que ainda dormia. Subiu na cama com as duas bonequinhas que havia escolhido e pegado sobre a cômoda: Moranguinho e Cafezinho (essa era a minha preferida pelo perfume). Foi se enroscando e deitando no espaço que eu, propositadamente, havia deixado para ela. Permaneci de olhos fechados ainda fingindo que dormia (esse era o nosso ritual diário) e ela lá, quietinha, na medida do que uma criança de 3 anos consegue ficar. Coçava o nariz, virava para um lado, para o outro. Bocejava alto, depois sussurrava uma musiquinha. Puxava as fitinhas da camisolinha de algodão branco com coraçõezinhos lilás e rosa, feita com a sobra do tecido de um jogo de cama de berço que não tinha mais serventia como roupa de cama, mas que permanecia novinho. Senti sua respiração de pertinho, como que investigando a veracidade do meu sono. Desistiu e encostou a cabecinha no meu peito, deixando que eu sentisse o cheirinho em seu cabelo, do xampuzinho infantil com aloevera e calêndula, o mesmo perfume da loção pós-banho. No cabelinho fino ainda estavam as marcas da maria-chiquinha usada no dia anterior.
Sussurou:
- Mamãe...
- Hummm...
- Cê tá dumiiino?
- Tôoo...
...
...
...- Quando você acordar você faz minha "dedera" de Toddy?
Ah, filhos, por que vocês crescem? É tão bom tê-los assim...
Respondi:
- Você tá crescendo muito depressa, um dia desses ainda amarro uma bigorna na sua cabeça pra você parar de crescer.
Levantei e fui à cozinha preparar a mamadeira.
