Estávamos eu e meu filho de 10 anos, João Victor, assistindo a um desses programas do tipo Show de Talentos, quando uma moça bonita apareceu para se apresentar com um violão completamente desafinado. Quando a bendita iniciou seus primeiros acordes, Jojô (este é o apelido dele) tapou os dois ouvidos com as mãos, se encolheu na poltrona soltando a frase indignada:
- Mamãe, a gente que é "músico" sofre. Será que essas pessoas não sabem que é preciso afinar o instrumento antes de se apresentar?
Claro que, como toda mãe coruja que se preze morri de rir, mas confesso que o que mais me impressionou foi sua segurança ao se declarar "músico". Ok, ele é filho de maestro, existe uma influência familiar e coisa e tal, mas qualquer um de nós adultos teria a maior prudência em fazer tal comentário. Tenho amigos que estudam música há anos, chegam a tocar peças difíceis, mas quando questionados respondem, "não, eu sou médico, a música é só um hobie". E isso não vale apenas para a música. Vale para a dança, pintura, esportes, e por aí vai.
Me lembro de quando João tinha 4 anos de idade e ao ser perguntado o que seria quando crescesse respondeu de pronto: “Maestro e lixeiro”. Ãhn, como assim? Simples: “Quero ser maestro por causa do papai e lixeiro porque eles são muito felizes, sempre brincam comigo quando passam aqui na porta de casa”. Visualizei, então, a imagem dos garis e me lembrei da algazarra que fazem ao passar pelas ruas do bairro, mexendo com as mocinhas, tirando onda entre eles, no maior pique que a adrenalina estimulada pelo trabalho aeróbico puxado lhes proporciona. João tem razão, lixeiros são mesmo muito felizes. E resolvidos. Já nós...
Educados academicamente somos todos cheios de dedos. Mas que pudor é esse? Desde quando temos que ser uma coisa só, ter uma profissão só, ser só isso ou aquilo? Quem foi que disse isso pra gente e nós acreditamos? Discordo totalmente. Eu posso ser várias coisas: empresária, designer, musicista, educadora, mãe, esposa e mais um tanto de coisas. Mas sempre que se fala em multi profissional ou multi habilidades as pessoas já relacionam logo essa ideia à pessoas excepcionais como Leonardo Da Vinci. Nada mais natural num mundo em que a especialização é cada dia mais valorizada.
Mas, voltando aos meus amigos habilidosos de que falei antes, percebo que tabu maior está no campo das artes, todo ele. Não sei se estas pessoas imaginavam ser uma coisa, mas por imposições familiares ou da sociedade acabaram não se tornando por não terem coragem de seguir com seu sonho, ou se a idéia de que os artistas são pessoas etéreas especialmente abençoadas pelos dons divinos ainda é muito forte, mas o certo é que o campo das artes é visto como um lugar para poucos.
Ninguém precisa ser um Da Vinci para ser multi. Até porque, fala-se muito nas suas muitas habilidades, mas, convenhamos, na época dele, as pessoas não tinham como aprofundar muito nos conhecimentos por falta de conteúdo palpável mesmo. Então, Da Vinci era cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, pintor, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico só nos tempos dele, porque nos dias de hoje não sei nem mesmo se ele seria considerado um grande pintor, tendo em vista que os talentos surge hoje e são substituídos por outro amanhã.
Fico com a Isabela, aluninha de 5 anos de idade do curso de Musicalização da minha escola, que um dia desses me pegou conversando com a mãe dela. Márcia confessava ter um sonho de infância de tocar piano. Repliquei na mesma hora: "Então você já tá no lugar certo". "Não, não, o que é isso, isso não é para mim, é muito difícil".
Ao que a Isabela respondeu:
- Não, mamãe, tocar piano é fácil quer ver? É só apertar a tecla – e mostrou com os dedinhos.
Que os deuses salvem as crianças e nos traga de volta este espírito simplista.

Adorei este post!!! Repleto de carinho e verdades, hein!!!! Parabéns Dê!!! E o Jojô é lindinho d+...
ResponderExcluirBeijos
Renatchuks, vc que é uma fofa. Acho que o melhor de tudo isso é compreender que temos muito mais a aprender com os filhos que eles com a gente.
ResponderExcluirObrigada pelo incentivo.
bjs!
D.