sábado, 22 de janeiro de 2011

PORQUE BIGORNA NA CABEÇA



Acordou cedinho. Tinha o hábito de acordar sempre por volta das 6 horas. Já acostumada com isso, eu ficava da minha cama ouvindo seus primeiros sinais de vida consciente. Primeiro a caixa de brinquedos, o barulhinho das pequenas peças sendo reviradas à procura do objeto específico. Nada de interessante. Silêncio... Em seguida, ouvi a última gaveta da cômoda sendo puxada. Ela serviria de degrau para alcançar a parte de cima do móvel, onde ficavam as bonecas. Mexe daqui, mexe dali, escolhe e desce. Depois disso os passinhos descalços vindo em minha direção, a porta do quarto sempre aberta até o canto para o caso dela ter algum pesadelo durante a noite. A luz do espelho do banheiro também ficava acesa até o dia amanhecer.
Entrou no quarto e eu fiquei lá, deitada de lado, fingindo que ainda dormia. Subiu na cama com as duas bonequinhas que havia escolhido e pegado sobre a cômoda: Moranguinho e Cafezinho (essa era a minha preferida pelo perfume). Foi se enroscando e deitando no espaço que eu, propositadamente, havia deixado para ela. Permaneci de olhos fechados ainda fingindo que dormia (esse era o nosso ritual diário) e ela lá, quietinha, na medida do que uma criança de 3 anos consegue ficar. Coçava o nariz, virava para um lado, para o outro. Bocejava alto, depois sussurrava uma musiquinha. Puxava as fitinhas da camisolinha de algodão branco com coraçõezinhos lilás e rosa, feita com a sobra do tecido de um jogo de cama de berço que não tinha mais serventia como roupa de cama, mas que permanecia novinho.  Senti sua respiração de pertinho, como que investigando a veracidade do meu sono. Desistiu e encostou a cabecinha no meu peito, deixando que eu sentisse o cheirinho em seu cabelo, do xampuzinho infantil com aloevera e calêndula, o mesmo perfume da loção pós-banho. No cabelinho fino ainda estavam as marcas da maria-chiquinha usada no dia anterior.
Sussurou:
- Mamãe...
- Hummm...
- Cê tá dumiiino?
- Tôoo...
...
...
...- Quando você acordar você faz minha "dedera" de Toddy?
Ah, filhos, por que vocês crescem? É tão bom tê-los assim...
Respondi:
- Você tá crescendo muito depressa, um dia desses ainda amarro uma bigorna na sua cabeça pra você parar de crescer.
Levantei e fui à cozinha preparar a mamadeira.

10 comentários:

  1. nao conhecia seu lado literário. uma pérola!

    ResponderExcluir
  2. Ae DD muito bom, acho q vc é um pouco dominadora. rsrs Bjs

    ResponderExcluir
  3. Uai, Luiz, cê acha? Nunca percebi isso (rss).

    ResponderExcluir
  4. Que lindo...emocionante! Um boa crônica se faz da própria vida mesmos...pequenos momentos com grandes significados.Parabéns!

    ResponderExcluir
  5. Ester,

    Vc tem toda razão: coisas que para algumas pessoas possam ter nenhum ou quase nenhum sentido pode ser a razão de viver de outras.

    Obrigada pelo carinho!
    Bjs.

    ResponderExcluir
  6. Ohhh.... primeiramente obrigada por traduzir em palavras o desejo de todas as mães (imagino eu)! nossa infinita vontade de que os filhos não cresçam! aaahhh q pena q tem q ser assim...tão diferente dos nossos sonhos, mas quer saber?? faz parte da vida não é mesmo??? meu consolo são os futuros netos??? acho q ainda é cedo pra eu pensar nisso ne?! (obs: minha filha tem 1 ano e 10 meses) rsrsrsrs

    Enfim! amei cada detalhe minha amiga virtual e cronista Dennyse! =D

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Janaina, querida, fico feliz que tenha gostado da crônica. Se gostou é porque, como toda mãe, é sensível o suficiente pra isso, né?
      Alguém já disse que não criamos os filhos para nós, mas sim para o mundo. O duro é conformarmos com isso.
      Beijos carinhosos e que Deus nos dê netos (acho que pra mim logo logo, já que a mais velha tem 27 ;))

      Excluir