- Oi, tudo
bem?
- Tudo, e
você?
- Também! Olha
só, não almocei e acho que vou só comer um salgado, mesmo. O que tem pra
lanchar?
- Tem empada, esfirra,
coxinha, enrolado de presunto, pão de queijo...
- Pão de
queijo!
- Um ou dois?
- Só um, uai.
Por que dois?
- Porque se
você vai almoçar, pode estar querendo comer mais.
- Não, daí
seria gula. Não há necessidade.
- É, estou
precisando aprender a fazer isso com o cigarro.
- É bom mesmo,
fumar não é legal. Aliás, fumar hoje em dia é brega, já foi o tempo em que um
cigarro era sinônimo de glamour.
- Mas se Deus
quiser eu vou conseguir sair desse vício, Deus há de me ajudar!
- Como assim?
Foi ele quem te pôs no vício? Não, então não é responsabilidade dele lhe tirar.
Isso é você quem tem que resolver.
É
impressionante a facilidade que as pessoas têm em colocar suas
responsabilidades nas costas de Deus. Onde já se viu isso? Me lembrei do meu
filho, ainda criança: malandrou o ano inteiro no colégio, tirou notas péssimas e,
em plenas provas finais, o flagro em seu quarto, de joelhos, uma vela acesa em
frente.
- O que é
isso?
- Tou rezando
pra Deus me ajudar a conseguir tirar notas boas na prova e não pegar
recuperação.
- Ah, tá! Pensa
bem: que Deus seria esse se ajudasse um malandro que não estudou o ano inteiro?
Estaria certo com o outro aluno, coitado, que se dedicou, esforçou, estudou
durante toda trajetória letiva? Isso seria justo? Ah, fala
sério, tá de brincadeira...
Fico me perguntando: que mania é essa das pessoas sempre dizerem que "Deus quis assim, Deus sabe o que faz"? Fico pensando que, talvez, as pessoas usem a "crença em Deus" como um passaporte para suas verdadeiras fraquezas.
"O erro é
crer que a culpa terá de ser entendida da mesma maneira por Deus e pelos
homens, disse um dos anjos" – Saramago, José. 2009. Caim. Editora Companhia das Letras, São Paulo.

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